Uma carta aos cansados, fadigados e exaustos com a vida.

a-carta

Uma carta aos cansados, fadigados e exaustos com a vida.

“A função da fé é receber o que a graça oferece”. – John Stott

 

Você está cansado. Fadiga não é uma palavra estranha.

Você conhece muito bem seus frutos: olhos queimando, ombros curvados, espírito triste e pensamentos robóticos.

Você está cansado.

Nós estamos cansados. Um povo cansado. Uma geração cansada. Uma sociedade cansada. Competimos. Corremos. As semanas de trabalho arrastam-se como invernos do Ártico. As manhãs de segunda feira surgem na noite de domingo. Nos arrastamos por longas filas e longas horas com rostos distante devido às longas listas de coisas que precisamos fazer, aparelhos que queremos comprar, ou pessoas que tentamos agradar. Roupas para lavar. Quintais para limpar. Armários para organizar. Fraldas para trocar. Tapetes, filhos, cachorros – tudo requer nossa atenção.

O governo quer mais impostos. As crianças querem mais brinquedos. O chefe mais horas e produção. A escola mais reuniões. O cônjuge mais atenção. Os pais mais visitas. E a igreja, ah, a igreja. Já mencionei a igreja? Servir mais. Orar mais. Participar mais. Promover mais. Ler mais. O que dizer?

Toda vez que recuperamos o fôlego, alguém precisa de algo. O mestre de obras pede outro tijolo para o mais novo palácio.

“Prepare aquele barro, hebreu!”

Sim, aí está ele. Seu ancestral. O escravo hebreu seminu, ombros encurvados, empilhador de tijolos do Egito. Fale sobre cansaço! Os condutores dos escravos estalavam chicotes e gritavam comandos. Para que? Para que o Faraó, com seu ego do tamanho do Nilo, ostentasse outro palácio, apesar de seus dedos nunca terem desenvolvido nem um calo ou erguido uma palha sequer.

Mas então Deus interveio. “EU SOU O SENHOR. EU os livrarei do trabalho imposto pelos egípcios. EU os libertarei da escravidão e os resgatarei com braço forte e com poderosos atos de juízos” (Êxodo 6.6).

Ele ousou, abriu o Mar Vermelho como uma cortina e fechou-o como mandíbula de tubarão. Transformou o exército de Faraó em comida de peixe e os hebreus em sócios-fundadores da Terra do Nunca Mais. Nunca mais tijolos, barro, cimento e palha. Nunca mais trabalho forçado, monótono e insignificante. Foi como se todo o céu gritasse: “Vocês podem descansar agora”.

Assim fizeram. Um milhão de pares de pulmões suspiraram aliviados. Eles descansaram. Por aproximadamente um centímetro e meio. Esse é o espaço entre o capítulo 15 e 16 do Êxodo. O tempo entre esses capítulos é de aproximadamente um mês. Em algum lugar nessa lacuna de um centímetro e meio, os israelitas decidiram que queriam voltar à escravidão. Lembraram-se das iguarias dos egípcios. Não tinha mais que cozidos de ossos, mas a nostalgia não se prende a detalhes. Falaram então a Moisés que queriam voltar para a terra de trabalho, suor e costas machucadas.

A resposta de Moisés? “Vocês ficaram malucos! Alguém os enfeitiçou? Perderam o juízo”? (Gálatas 3.1 MSG).

Ops, me enganei. Essas são palavras de Paulo, não de Moisés. Palavras para os cristãos, não para os hebreus. Novo Testamento, não o Antigo. Século 1 d.C., não século 13 a.C. Erro compreensível, porém, pois os cristãos da época de Paulo comportavam-se como os hebreus da época de Moisés. Ambos foram redimidos, mas ainda assim viravam as costas à liberdade.

A segunda redenção ofuscou a primeira. Deus não enviou Moisés, enviou Jesus. Ele destruiu não a Faraó, mas Satanás, Não com dez pragas, mas com uma única cruz. O Mar Vermelho não se abriu, mas a sepultura, sim, e Jesus liderou todos aqueles que queriam segui-lo à Terra do Nunca Mais. Sem mais preservação da lei. Nunca mais lutar pela aprovação de Deus. “Vocês podem descansar agora”, disse a eles.

E assim fizeram. Por aproximadamente catorze páginas, que é a distância, na minha Bíblia, entre o sermão de Pedro e Atos 2 e a reunião da igreja em Atos 15. No primeiro caso, a graça foi pregada. No segundo, a graça foi questionada. Não é que as pessoas não acreditassem na graça de modo algum. Elas acreditavam. Acreditavam muito na graça. Elas apenas não acreditavam na graça simplesmente. Queriam complementar o trabalho de Cristo.

Os cheios de graça acreditam muito na graça. Jesus quase terminou o trabalho da salvação, argumentam eles. Em um barco a remo chamado Rumo ao Céu, Jesus rema a maior parte do tempo. Mas, às vezes, ele precisa de nossa ajuda. Então, a fornecemos. Acumulamos boas obras da mesma maneira que escoteiros acumulam medalhas de mérito.

A maioria das pessoas se apega à suposição de que Deus salva as pessoas boas. Então, seja bom! Seja correto. Seja honesto. Seja descente. Reze o rosário. Guarde o sábado. Mantenha suas promessas. Ore cinco vezes ao dia na direção ao leste. Fique sóbrio. Pague impostos. Ganhe medalhas de mérito. Seja um exemplo de bom comportamento

E, mesmo assim, com toda essa conversa sobre ser bom, ninguém consegue responder à pergunta fundamental: que quantidade de bondade é boa o bastante? Bizarro. Nosso destino eterno está em jogo; mesmo assim, estamos mais confiantes com relação às receitas de bolo de cenoura do que com os requerimentos para a entrada no céu.

Deus tem uma ideia melhor; “Vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Efésios 2.8). Não contribuímos com nada. Nadica de nada. Ao contrário a medalha de mérito, a salvação da alma não é adquirida. Um presente. Nossos méritos não merecem nada. O trabalho de Deus é que merece todo o mérito.

Esta foi a mensagem de Paulo aos cheios de graça. Imagino o seu rosto vermelho, os punhos cerrados e as veias saltando no pescoço. “Cristo nos redimiu dessa vida amaldiçoada de derrotas, quando ele mesmo nos absorveu” (Gálatas 3.13 MSG). Tradução: Diga não a exaustão e aos tijolos. Diga não às regras e às listas! Diga não à escravidão. Diga não ao Egito. Jesus redimiu você. Você sabe o que isso significa?!

Aparentemente eles não sabiam.

E você?

Caso não saiba, eu sei o motivo de sua fadiga. Você precisa confiar na graça de Deus.

Por que é tão difícil confiar em Deus?

Achamos mais fácil acreditar no milagre da ressurreição do que no milagre da graça. Temos tanto medo de fracassar que criamos a imagem de perfeição, com medo de que o céu esteja mais desapontado conosco do que nós estamos. O resultado? A pessoa mais exausta da terra.

As tentativas de autossalvação não levam a nada, a não ser à exaustão. Corremos e nos apressamos, tentamos agradar a Deus, colecionamos medalhas de mérito e pontos extras com todos os tipos de bônus e franzimos a testa a qualquer um eu questione nossas conquistas. Chamam-nos de “a igreja dos rostos de cães de caça e ombros caídos”.

Pare com isso! De uma vez por todas, chega desse frenesi. “É bom sermos espiritualmente fortes por meio da graça de Deus, e não por meio da obediência a regra” (Hebreus 13.9 NTLH). “Jesus não diz: Venham a mim, todos os perfeitos e sem pecados”.

Ele disse totalmente o oposto. “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11.28).

Não há letras miúdas. Não vai perder o outro sapato. A promessa de Deus não tem linguagem subliminar. Deixe que a graça aconteça, por favor. Chega de atuação para Deus, chega de gritar atrás de Deus. De todas as coisas que você deve adquirir na vida, a afeição ilimitada de Deus não é um delas. Você já a tem. Espreguice-se na rede da graça.

Você pode descansar agora.